Estudo pode tornar mais assertivo o tratamento contra o melanoma, um tipo de câncer de pele considerado mais agressivo e letal; DataSus mostra que em dez anos foram registrados 1.004 internações e 122 óbitos por essa doença na região
Um estudo realizado no Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular do Hospital de Amor, em Barretos, chegou a um achado inédito no mundo que pode tornar mais assertivo o tratamento contra o melanoma, um tipo de câncer de pele considerado mais agressivo e letal.
A engenheira biotecnológica Bruna Pereira Sorroche identificou que quando quatro genes são encontrados em grande quantidade no tumor, indica que o paciente não vai responder à imunoterapia, que é o tratamento mais indicado para este tipo de câncer.
Por meio desse marcador, a equipe médica tem condições de estabelecer outras estratégias terapêuticas e direcionar a imunoterapia somente para pacientes elegíveis ao tratamento, o que impacta na eficiência dos recursos públicos.
Dados do DataSus mostram que em dez anos (de 2015 a 2024) foram registradas 1.004 internações por câncer de pele maligno na região de Rio Preto e 122 óbitos. O relatório aponta ainda que 2024 foi o ano que registrou o pior cenário do período, com 130 internações e 20 mortes. Neste ano, até junho, 59 internações pela doença foram realizadas, com notificação de sete óbitos.
“Um percentual de 40 a 60% desses pacientes com melanoma avançado ressecável, tratados com imunoterapia, não respondem à terapia. Então a nossa busca era por marcadores de resposta que pudessem predizer se o paciente vai ou não se beneficiar dessa terapia específica”, explica a professora Lídia Maria Rebolho Batista Arantes, orientadora da pesquisa.
O estudo analisou amostras de tumor de 35 pacientes com melanoma avançado tratados com imunoterapia entre 2016 e 2021 no Hospital de Amor. A cientista Bruna cruzou essas amostras com dados de um painel de 579 genes relacionados ao sistema imunológico. Com isso, identificou quatro genes – CD24, NFIL3, FN1 e KLRK1 – cuja expressão aumentada se mostrou fortemente associada à resistência ao tratamento.
“Quando a gente fala de expressão aumentada, estamos falando de maior atividade desses genes, como eles foram medidos no tumor desses pacientes. Isso significa que dentro do tumor desse paciente esses genes com mais expressão estavam mais ativos”, esclarece a professora.
Segundo Bruna, o aumento da expressão desses quatro genes está relacionado a mecanismos já conhecidos de desenvolvimento de tumores e escape imunológico – ou seja, formas pelas quais o câncer consegue ‘se esconder’ do sistema de defesa do corpo. “Isso explicaria por que alguns pacientes não se beneficiam da imunoterapia, mesmo quando o tratamento é tecnicamente indicado”, diz.
A descoberta foi confirmada por dados de letalidade. Após cinco anos de observação, apenas 5,9% dos pacientes com alta expressão dos genes marcadores estavam vivos, contra 48,1% com baixa expressão.
A pesquisa defende que analisar o perfil genético do tumor pode ser útil desde o início do tratamento para orientar decisões terapêuticas de forma mais eficaz.
“A imunoterapia é uma terapia extremamente cara, então identificar aqueles pacientes que não irão se beneficiar da terapia, além economia de dinheiro, esse paciente vai ser direcionado para terapia que será benéfica para ele mais cedo. Ele não vai precisar passar por toda a imunoterapia e os efeitos colaterais”, justifica Lídia.
O próximo passo do trabalho é ampliar a análise com um número maior de pacientes.
“A ideia é montar um painel gênico para fazer análise do tumor e saber se esse paciente vai ou não responder ao tratamento. É uma estratégia possível de incorporação ao SUS”, afirma a professora.
O melanoma atinge pessoas de pele clara, tem relação com a exposição ao sol e pode estar associado a histórico familiar, bem como a idade avançada. São registrados cerca de 9 mil casos de melanoma por ano no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer.
(Com informações da Agência SP)
Dados:
O que é
- O câncer de pele melanoma tem origem nos melanócitos (células produtoras de melanina, substância que determina a cor da pele) e é mais frequente em adultos brancos. O melanoma pode aparecer em qualquer parte do corpo, na pele ou mucosas, na forma de manchas, pintas ou sinais.
O que aumenta o risco
- Exposição prolongada e repetida ao sol (raios ultravioletas – UV), principalmente na infância e adolescência.
- Exposição a câmeras de bronzeamento artificial.
- Ter pele e olhos claros, com cabelos ruivos ou loiros, ou ser albino.
- Ter história familiar ou pessoal de câncer de pele.
Sinais
- O melanoma pode surgir a partir da pele normal ou de uma lesão pigmentada. A manifestação da doença na pele normal se dá após o aparecimento de uma pinta escura de bordas irregulares acompanhada de coceira e descamação.
- Em casos de uma lesão pigmentada pré-existente ocorre aumento no tamanho, alteração na coloração e na forma da lesão, que passa a apresentar bordas irregulares.
Diagnóstico
- O diagnóstico precoce desse tipo de câncer possibilita melhores resultados em seu tratamento e deve ser buscado com a investigação de sinais e sintomas.